A sabedoria em Israel sempre esteve pautada na vida, no cotidiano e na história do povo. Foi assim que a sabedoria nasceu, desenvolveu-se e alcançou os mais diversos lugares, até mesmo a corte, chegando inclusive a ser personificada.
Se a sabedoria mantém estreita relação com o ser humano e aquilo que é sua essência, o bem viver, a felicidade e o louvor a Deus, ela não poderia deixar de tratar de um dos temais mais caros à vida humana que é o amor. Esta sabedoria do amor vem desenvolvida com grande intensidade na Sagrada Escritura através do livro Cântico dos Cânticos.
Atribuído a Salomão, figura representativa da sabedoria de Israel, o Cântico dos Cânticos até hoje é alvo de admiração e surpresa, de procura de sentido e interpretação, de estudo e contemplação. Por tratar de forma real, límpida e transparente o amor em todas as suas dimensões torna-se praticamente impossível a não identificação com o amado ou a amada. O Cântico dos Cânticos fala de sentimentos e desejos autênticos, inerentes ao homem e à mulher; fala da perfeição e da beleza deste amor, colocando no centro da vida esta experiência fundamental da humanidade; fala da verdade que anseia todo ser por completar-se, da procura constante por um outro tu.
Neste sentido, a linguagem a que recorre o autor ou redator final do livro se mostra de relevante importância, pois comunica não só fatos ou conceitos sobre o amor, mas antes a essência daquilo que foi experimentado, a verdade de alguém que ama. Através da poesia o autor toca em temas profundamente íntimos como o jogo de amor (4,9-15; 5-2-8), as relações sexuais (2,4; 7,12-13), e o corpo da mulher e do homem com todas as suas nuances (4,1-7; 5,10-16), compondo uma linguagem fortemente erótica mas ao mesmo tempo bela.
A multiplicidade de imagens é notável no Cântico dos Cânticos. O amor não pode ser descrito em uma palavra, por apenas uma comparação ou uma figura, nem mesmo em um único poema. Trata-se de uma realidade que escapa ao homem, que o transcende, por isso muitas são as imagens, palavras, formas e poesias que procuram explicitar um pouco deste mistério ainda que nenhuma delas o esgote. Por ser este um mistério tão amplo é que a sabedoria não procura definir ou compreender objetivamente o amor. A proposta do livro é de acolhê-lo assim como ele se revela na vida do ser humano. Diante deste mistério fala-se até certo ponto. Até certo ponto também há que ter a sabedoria para calar-se.
Desta forma, por mais que estudiosos e exegetas procurem uma lógica para a estrutura do livro ela sempre se mostra limitada. Não seria esta também uma característica do amor, de não ter lógica, de não se enquadrar em padrões pré-estabelecidos, de não aceitar esquemas, de romper com todas as barreiras sejam elas sócias, culturais ou religiosas? O amor é sempre aquele que possibilita o novo, que irrompe em vida nova. Isto se delineia ao longo dos oito capítulos do Cântico dos Cânticos, numa busca constante pela vida.
O livro Cântico dos Cânticos possui grande destaque no judaísmo. Além de ser o livro lido na principal festa judaica, a Festa da Páscoa, também seu título já nos orienta para sua importância. ‘Cântico dos Cânticos’ é uma forma de superlativo hebraico, assim como ‘Santo dos Santos’ e ‘Rei dos Reis’. Não seria sem motivo, portanto, a afirmação de que este é o mais belo dos cânticos: por tratar de um tema pessoal e ao mesmo tempo universal, que chega a quem quer que seja, indistintamente, alcançando e fazendo eco a todo coração humano.
A vida humana, conforme afirmamos anteriormente, sempre foi ponto de partida para a sabedoria bíblica. Assim como a sabedoria das coisas aparece com destaque no livro dos Provérbios, a sabedoria do amor ganha espaço no livro do Cântico dos Cânticos. Mas qual seria esta sabedoria do amor? Tomemos como texto chave o epílogo do redator final do Cântico dos Cânticos que, para muitos, se constitui chave de leitura para compreensão de todo o livro:
“Pois o amor é forte, é como a morte,
o ciúme é inflexível como o Xeol.
Suas chamas são chamas de fogo
uma faísca de Iahweh!
As águas da torrente jamais poderão
apagar o amor,
nem os rios afoga-lo.
Quisesse alguém dar tudo o que tem
para comprar o amor...
Seria tratado com desprezo. (Ct 8,6b-7)
O grande destaque que logo observamos beste trecho refere-se à força do amor. Ele é comparado inicialmente com a morte. O poema não diz que o amor é superior ou vencedor da morte nem mesmo que ambos estão competindo, antes quer dizer que, como a morte, o amor é persistente, perseverante, não desiste de seus objetivos, direcionando todas as forças para o amado. Notamos isso em todo o decorrer do livro. A procura pelo amado é incessante, a amada não desiste de encontrá-lo (1,7-8; 3,1-4; 5,6-7). Nada é capaz de deter: nem as águas da torrente, nem os rios. Esta força também se manifesta na densidade dos elogios com que são feitas as descrições tanto do amado como da amada (1,9-10.15-16; 2,1-3.9; 4,1-5.10-15; 5,10-16; 6,4-7; 7,2-10). Não são poupadas palavras, imagens e comparações. O ciúme apresentado aqui pode também ser traduzido como a paixão e Xeol refere-se a habitação dos mortos. Assim, o segundo verso reforça o verso anterior, ressaltando que o amor é tão exigente quanto à morte e supõe uma entrega total da pessoa. A ele ninguém poderá resistir.
Outro destaque relevante refere-se à gratuidade do amor. O amor não pode ser comprado. Sendo o amor uma marca indelével e eterna, deve ser vivido com generosidade, como dom de Deus ao ser humano. Ao longo dos poemas esta verdade se traduz em formas diversas, num constante convite a contemplar a natureza nas flores, nas árvores, nos frutos, no passeio pelos campos, (16; 2,11-17; 4,8.12-16; 7,12-14) e a festejar, celebrando a vida e o amor (1,4; 3,11; 5,1). A gratuidade envolve o tempo e nisto o amor é também exigente. Não poucas vezes se repete o conselho “não desperteis, não acordeis o amor, até que ele o queira!” (2,7; 3,5; 5,8; 8,4). O amor possui o seu próprio tempo. Quem possui a sabedoria do amor sabe: ele não pode ser forçado, adquirido ou comprado, ele vale muito mais que ouro e prata, é graça. Apesar de algo intrínseco ao ser humano o amor o excede, não pode ser açambarcado pelo homem, pois o ultrapassa situando-se na fronteira com o divino.
Neste sentido o termo “faísca de Iahweh” se exprime como chave principal para compreender o amor e sua sabedoria. Esta é a única vez que o nome de Iahweh é empregado no livro. Alguns estudiosos traduzem a expressão por “uma labareda de Yah” considerando não o nome de Deus, mas como um superlativo literário. A partir do que expomos anteriormente, esta partícula se mostra como ápice de todo o livro porque revela, ainda que não plenamente, a sabedoria do amor e a mensagem do Cântico dos Cânticos. A expressão continua a mesma intensidade literária dos versos anteriores, ressaltando a força do amor. Agora, porém, revela que este amor possui uma relação estreita e tênue com algo divino, superior e que excede o próprio ser. Como um relâmpago que une o céu e a terra o amor une Deus e o homem. Como um raio que com sua força consome ao mesmo tempo em que dissipa as trevas, divide os ares e manifesta o poder da criação, assim é o amor: intenso, cheio de energia, atinge toda pessoa e o religa à sua força vital, o próprio Criador. É como se de repente tudo ficasse mais claro, uma verdade nos fosse revelada, nos tornasse mais acessível ainda que não de todo compreensível porque sendo é parte também do mistério divino.
Através dos Cânticos dos Cânticos compreendemos melhor a sabedoria do amor. Como em toda a sabedoria de Israel ela está sempre relacionada a Iahweh. Assim não é contrário afirmar que o amor é uma faísca de Iahweh, pois Deus só se revela no humano, partindo de suas realidades mais autênticas e universais. Diversas foram as interpretações ao longo dos séculos sobre o Cântico dos Cânticos. Partidários de uma leitura mais literal, do amor humano, e de uma leitura mais espiritual e analógica, fazendo relação entre Deus (o amado) e o seu povo (a amada). A partir do que refletimos podemos constatar que ambas as interpretações não se excluem, ao contrário, se completam. É preciso, porém, considerar que houve uma experiência concreta de amor tão intensa entre duas pessoas a ponto de ser digna do reconhecimento da presença de Deus por parte da comunidade que via ali a sua própria experiência de fé. Isso implica afirmar que tudo que se diz no Cântico dos Cânticos, toda sua linguagem erótica, toda a intensidade dos sentimentos, toda entrega e toda doação mútua são verdadeiros e reais, não nos deve causar qualquer mal-estar. O amor foi confirmado por Deus como parte Dele doada ao homem. Vivendo o amor como humano se vive em estreita relação com Deus.